Skip to main content

INUNDAÇÕES VOLTAM A ATINGIR MANHIÇA E EXPÕEM CICLO DE VULNERABILIDADE DAS FAMÍLIAS AFECTADAS

capa

Face ao agravamento da situação, a Associação ActionAid Moçambique (AAMoz) e seu parceiro Núcleo Académico para o Desenvolvimento da comunidade (NADEC), preparam uma nova distribuição de kits de emergência ainda esta semana, com apoio da Danida e da Federação ActionAid.

Moçambique atravessa uma das épocas chuvosas mais severas dos últimos anos. Entre Outubro de 2025 e Março de 2026, o país registou 872.569 pessoas afectadas (201.449 famílias), incluindo 270 óbitos, 333 feridos e 10 desaparecidos, segundo dados do Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres (INGD). As províncias de Maputo, Gaza e Sofala foram as mais afectadas.

Manhiça: um desastre dentro do desastre

No distrito da Manhiça, província de Maputo, a situação é particularmente crítica. Dados oficiais indicam que 12.927 famílias, correspondentes a mais de 63.000 pessoas, foram afectadas pelas inundações, o que tornou o distrito um dos mais impactados da região sul.


Houve registo de inundações nas zonas habitacionais, campos agrícolas, áreas de pastagem e infraestruturas sociais, onde foram afectadas, de forma severa, os postos administrativos de: Manhiça-Sede, Xinavane, Calanga, 3 de Fevereiro e Ilha Josina Machel.

Devido as cheias, habitações foram destruídas, culturas agrícolas perdidas, animais morreram e equipamentos de pesca foram arrastados pela água, tendo eliminado, em poucos dias, os meios de subsistência de milhares de famílias.


“Tive que fugir de Buna sem nada. Tudo o que tinha a água levou. Nem todos os vizinhos conseguiram fugir”, relatou, Elsa Manhique residente de Buna.

Joana Mulhovo, uma das vítimas evacuadas, relatou que perdeu quase tudo em Buna. “Eu saí sem nada, não tenho mantas, não tenho roupa, não tenho nada”.  
 

Resgate e deslocação em massa

Com a subida rápida das águas, comunidades inteiras ficaram isoladas. O Governo mobilizou helicópteros e barcos para evacuar as populações, resgatou pessoas que permaneciam em telhados, árvores e zonas completamente cercadas pela água.

“Ficámos dias sem comida, à espera de ajuda”, recorda Victória Luís de Xinavane.
As famílias foram encaminhadas para os centros de acomodação, com destaque para a Escola Primária 3 de Fevereiro.

Inicialmente concebido para acolher um número limitado de pessoas, o centro rapidamente ficou sobrelotado, à medida que chegavam deslocados provenientes de Buna, Xinavane, Ilha Josina Machel e outras zonas.

“Dormimos apertados, sem privacidade e com poucas condições”, descreve Elsa Manhique.

A pressão levou à abertura de um segundo centro no Instituto de Formação de Professores de Chibututuine.


Resposta humanitária: ouvir antes de agir

Face à emergência, a Associação ActionAid Moçambique, em coordenação com o Governo — através dos Serviços Distritais de Planificação e Infraestruturas (SDPI) e do INGD — realizou uma avaliação rápida de necessidades junto das comunidades afectadas.

“As pessoas foram claras: precisavam de comida, abrigo e protecção”, explicou  o coordenador do Comité Local de Gestão de Desastres da zona de 3 de Fevereiro, Euclides Joaquim.

Como resposta, foram distribuídos 300 kits de emergência às famílias afectadas em Xinavane e 3 de Fevereiro.

Além disso, foram estabelecidos espaços seguros em Buna e Xinavane, com foco na protecção de crianças, raparigas e mulheres.

“A nossa expectativa é que todas as intervenções garantam o respeito pelos direitos. Queremos assegurar que haja identificação e encaminhamento adequado dos casos de crianças e mulheres em situação de vulnerabilidade, para que todas as suas necessidades sejam atendidas e os seus direitos protegidos e respeitados”, afirmou Hortência Timbe, facilitadora comunitária.

Quando a crise se repete

Apesar dos esforços, a situação voltou a agravar-se. As chuvas que têm vindo a cair nos últimos dias provocaram novamente inundações em Xinavane e em algumas partes das localidades de 3 de Fevereiro e Ilha Jozina Machel e afectaram famílias que ainda tentavam recuperar.

“A minha casa ficou inundada outra vez… Não tenho nada para os meus filhos”, lamenta Maria Sambo.

Reassentamento: solução identificada, mas travada

O Governo identificou áreas seguras para o reassentamento das famílias. No entanto, a falta de recursos para infraestruturas básicas — habitação, água, saneamento — tem impedido a implementação efectiva da solução. Sem alternativas, muitas famílias continuam em zonas de risco.

“Queremos sair daqui, mas não temos como começar de novo”, disse Ivone António.

Um ciclo que aprofunda a vulnerabilidade

O cenário na Manhiça evidencia um ciclo preocupante: cheias, deslocação, ajuda emergencial, retorno precário e novas cheias. Cada repetição agrava a vulnerabilidade das famílias, que perdem bens materiais e capacidade de recuperação.

Nova resposta em curso

Face ao agravamento da situação, a Associação ActionAid Moçambique (AAMoz) e seu parceiro Núcleo Académico para o Desenvolvimento da comunidade (NADEC), preparam uma nova distribuição de kits de emergência ainda esta semana, com apoio da Danida e da Federação ActionAid.