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“DO CAMPO À ESTRADA: CAISSE SAÍDE COMPROU UM CARRO COM OS LUCROS DA SUA PRODUÇÃO AGRÍCOLA EM LICHINGA”

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Na comunidade de Naossa, no distrito de Lichinga, província de Niassa, onde durante muito tempo as oportunidades eram escassas e a incerteza fazia parte do quotidiano, começa a emergir uma nova narrativa — uma história de esperança, resiliência e mudanças protagonizadas por jovens que decidiram mudar o seu próprio destino.

Entre esses rostos está o de Caisse Saíde, de 28 anos, um jovem agricultor que hoje é visto como exemplo dentro da sua comunidade. Integrante de um grupo de poupança e crédito rotativo (PCR) composto por 30 jovens, Caisse encontrou, neste espaço apoio financeiro e confiança para sonhar mais alto.

“Estou muito feliz por fazer parte do grupo de poupança com outros jovens da minha comunidade. Tenho visto mudanças na minha vida.  Primeiro, emprestei 10 mil meticais para comprar sementes e adubos para produzir cenoura, repolho, milho e batata. Produzi, vendi e consegui devolver o valor”, contou com orgulho.

O primeiro passo foi apenas o início de uma caminhada que rapidamente ganhou dimensão. Com disciplina e visão, Caisse decidiu arriscar mais.

“Depois solicitei mais 30 mil meticais. Com esse valor, consegui produzir e vender 95 sacos de milho a 1.050 meticais cada. Também vendi 38 sacos de batata a 1.450 meticais cada, 153 sacos de repolho a 900 meticais cada e ainda 10 sacos de cenoura a 4 mil meticais por saco”, explicou.

Os produtos de Caisse atravessaram fronteiras provinciais, onde chegou a mercados de Nampula, Cabo Delgado e outras zonas de Niassa — um feito que poucos imaginariam possível.

“Vendi para compradores vindos de Nampula, Cabo Delgado e também daqui de Niassa. Depois consegui devolver os 30 mil meticais”, acrescentou.

Mas o impacto vai muito além das colheitas. Os frutos deste esforço refletem-se directamente na qualidade de vida da sua família.

“Com os lucros, consegui comprar um carro, cama, televisão plasma, cadeiras, telefones e material escolar para os meus filhos, entre muitas outras coisas”, afirmou.

Na comunidade, a mudança é visível e sentida por todos. Para muitos, Caisse tornou-se uma fonte de inspiração.

“Antes víamos muitos jovens sem ocupação, mas agora há exemplos como o do Caisse que nos mostram que é possível crescer com o nosso próprio esforço. Estes grupos de poupança estão a mudar vidas. Os jovens já não ficam apenas à espera, estão a criar oportunidades”, disse Amosse Dickson, membro da comunidade de Naossa.

Saíde aproveitou a ocasião para encorajar outros jovens da sua comunidade e, não só, a investirem em pequenos negócios como forma de construir um futuro digno. “É importante manterem-se afastados de influências negativas, incluindo o risco de recrutamento por grupos extremistas”.


Este impacto é fruto do projecto Prevenção do Extremismo Violento (PVE), uma iniciativa implementada pela Associação ActionAid Moçambique (AAMoz), através da Agência de Desenvolvimento Integrado do Norte (ADIN), com financiamento do Fundo Global de Engajamento e Resiliência da Comunidade (GCERF). O projecto aposta no fortalecimento dos meios de subsistência como estratégia para promover a paz, a coesão social e a estabilidade nas comunidades.

Actualmente, a comunidade de Naossa conta com três grupos de poupança, que envolve cerca de 90 membros. Muitos jovens já beneficiaram de empréstimos para desenvolver iniciativas de geração de rendimento, desde machambas a pequenos negócios locais.

Num contexto em que o norte do país continua a enfrentar desafios associados à acção de grupos extremistas violentos — particularmente desde 2017, com epicentro em Cabo Delgado e sinais de possível expansão para Niassa e Nampula, iniciativas como esta tornam-se relevantes e urgentes.

Importa referir que o projecto PVE está a ser implementado nas províncias de Cabo Delgado, Niassa e Nampula até finais de 2026, pela Associação ActionAid Moçambique (AAMoz), em parceria com a Associação ASSANA, Fundação NUNISA, Conselho Cristão de Moçambique (CCM Cabo Delgado e Niassa), Associação Kuendeleya e o Movimento Activista Moçambique (MAM).