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FUGIU DOS ATAQUES TERRORISTAS E HOJE TEM UM NEGÓCIO QUE LHE AJUDA A SONHAR

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Todas as manhãs, antes de seguir para a Escola Secundária 16 de Junho, nos arredores do bairro Paquite, cidade de Pemba, Ngamo Cefo organiza cuidadosamente os produtos que vende, tomate, cebola, alho, óleo alimentar, pimenta, caldo e bolinhos. 

Aos 25 anos, aluna da 12.ª classe, aprendeu que cada venda representa a possibilidade de continuar a estudar, apoiar a sua família e reconstruir uma vida interrompida pelos ataques terroristas. 

Natural do distrito de Quissanga, província de Cabo Delgado, Ngamo cresceu a ajudar a sua mãe na machamba. A família vivia da produção e venda de milho, amendoim e hortícolas. Era uma vida simples, mas suficiente para alimentar a família.

Tudo mudou quando os ataques terroristas atingiram o distrito de Quissanga. A violência obrigou a família a fugir e deixaram para trás a sua casa, a machamba e tudo o que tinham. 

“Os ataques ocorreram em 2019 e a minha vida mudou completamente. Perdemos tudo! O meu irmão mais velho morreu. Tenho uma sobrinha que continua desaparecida até hoje”, disse, tendo acrescentado que “matar outro ser humano não é bom. A dor que uma pessoa sente é a mesma dor que eu também sinto”, desabafou, com os olhos carregados de lágrimas. 

Como muitas famílias deslocadas, recomeçar significou enfrentar inúmeras dificuldades. Para ajudar em casa, onde vive com a sua tia e avó, e continuar com os estudos, a jovem começou um pequeno negócio de venda tomate, cebola e óleo. 

No entanto, o lucro era reduzido e houve momentos em que pensou desistir. Foi através do Projecto “Prevenção do Extremismo Violento (PVE)”, implementado pela Associação Kuendeleya em Cabo Delgado, parceira da Associação ActionAid Moçambique (AAMoz), que passou a integrar um grupo de Poupança e Crédito Rotativo (PCR) local.

A participação no grupo permitiu-lhe desenvolver conhecimentos de gestão de negócios e, mais tarde, obter um empréstimo de 2.000 meticais, que utilizou para expandir o seu negócio. Hoje, a sua banca oferece uma maior variedade de produtos, incluindo tomate, cebola, alho, coco, óleo alimentar, pimenta, limão, arroz, caldo e bolinhos. 

O aumento das vendas trouxe também uma nova forma de gerir o dinheiro “quando estou a poupar, não estou a poupar dinheiro de ninguém. Estou a poupar o meu próprio dinheiro para conseguir pagar os meus estudos e ajudar a minha família”, frisou. 

Ngamo explicou que aprendeu a controlar melhor as suas finanças depois dos treinamentos. 

“Agora faço as contas do meu negócio e sei quanto ganho. Uma parte dos lucros vai directamente para a poupança”, frisou. 

O crescimento do pequeno negócio permitiu-lhe gerar o seu próprio rendimento e continuar a frequentar a escola sem desistir dos seus sonhos. A experiência devolveu-lhe confiança na sua capacidade de construir o futuro. 

“Houve uma altura em que queria desistir do meu negócio, mas minha mãe incentivou-me a continuar. Este projecto ajudou-me. Espero que chegue ainda mais longe e apoie outros jovens”, contou. 

Apesar do seu passado ter sido marcado por violência armada, Ngamo é um exemplo para jovens deslocados da sua comunidade e olha o futuro com esperança. 

“Se fizeres parte de um grupo de poupança, usa o dinheiro que receberes para abrir uma pequena loja e fazer crescer o teu negócio”, aconselhou. 

Assim como Ngamo, vários jovens de Paquite, capacitados no âmbito do projecto PVE, estão a desenvolver pequenos negócios que garantem o seu sustento e da sua família.