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JÚLIO JOSÉ: “QUANDO TEMOS OPORTUNIDADES PARA TRABALHAR, ESCOLHEMOS CONSTRUIR A PAZ”

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Nos últimos anos, o distrito de Eráti tornou-se um lugar de acolhimento para milhares de famílias que fugiram de ataques terroristas no vizinho distrito de Memba. Num contexto em que muitas comunidades enfrentam os impactos do deslocamento, da perda de meios de subsistência e da incerteza, Júlio José, mostra como o trabalho digno, a coesão social e o empreendedorismo podem fortalecer a esperança e a convivência pacífica.

Todas as manhãs, antes de abrir a pequena mercearia junto à sua casa, Júlio José passa pela machamba para verificar o estado das culturas. Entre couve, alface, tomate, espinafre, alho, milho, beringela e cenoura, cada colheita representa o fruto do seu trabalho construído com muito sacrifício.

Aos 32 anos, residente em Namapa, distrito de Eráti, província de Nampula, Júlio sustentava a família apenas com os rendimentos da pequena mercearia instalada na sua residência.

“Vivia do dinheiro que fazia na mercearia. Conseguia alguma coisa para sobreviver, mas sentia que não era suficiente para melhorar a vida da minha família”, contou.

Foi então que decidiu integrar um grupo de poupança e crédito rotativo promovido no âmbito do Projecto “Prevenção do Extremismo Violento (PVE)”. Todas as semanas começou a poupar 150 meticais e participou em formações sobre gestão de pequenos negócios, educação financeira, coesão social, convivência pacífica e prevenção do extremismo violento.

“O grupo de poupança ajudou muito na minha vida. Aprendi a poupar, a gerir melhor o meu negócio e também aprendi sobre coesão social, boa convivência e prevenção do terrorismo”, afirmou.

À medida que consolidava a sua poupança, surgiu uma nova oportunidade. Um amigo cedeu-lhe um terreno para produzir e Júlio solicitou um empréstimo de 9.000 meticais ao grupo para investir na agricultura.

“Um amigo emprestou-me este espaço para cultivar. Pedi o empréstimo e aproveitei a oportunidade para começar a produzir”, explicou.

Hoje divide o seu tempo entre a mercearia e a machamba. Produz hortícolas e cereais que comercializa no mercado local, ao mesmo tempo que continua a abastecer a sua mercearia com produtos essenciais para a comunidade.

“Com a machamba e a mercearia consigo ganhar entre três e quatro mil meticais por mês. Isso ajuda-me a sustentar a minha família e a continuar a investir”, frisou.

Os rendimentos permitiram-lhe melhorar gradualmente as condições de vida da família. Com os lucros, comprou cadeiras, mesas, pratos e copos, bens que representam o resultado do seu esforço e da boa gestão do negócio.

Para Júlio, a transformação mais importante aconteceu na forma como passou a olhar para o futuro e para a sua comunidade.

“Quando uma pessoa tem uma ocupação e consegue ganhar o seu próprio dinheiro, passa a acreditar no futuro. O trabalho dá-nos dignidade e esperança”, desabafou.

Num distrito que recebeu milhares de pessoas deslocadas pela violência, Júlio acredita que criar oportunidades económicas para a juventude é uma das formas mais eficazes de fortalecer comunidades resilientes.

“Não podemos seguir o terrorismo. Isso destrói famílias e comunidades. Temos de participar em iniciativas que nos ensinam a trabalhar, a poupar e a viver em paz. Quando os jovens têm oportunidades para produzir, fazer negócios e construir o seu futuro, escolhem um caminho que beneficia toda a comunidade”, referiu.

Esta história integra as actividades do Projecto de Prevenção do Extremismo Violento (PVE), implementado pela Associação ActionAid Moçambique (AAMoz), através da Agência de Desenvolvimento Integrado do Norte (ADIN), com financiamento do Fundo Global de Engajamento e Resiliência da Comunidade (GCERF). O projecto é implementado nas províncias de Cabo Delgado, Niassa e Nampula e promove a autonomia económica, a participação comunitária e a construção de uma paz duradoura através de parcerias com organizações locais.