“AGORA JÁ SEI ONDE ESTÁ O MEU LUCRO E HOJE SOU UMA VOZ NA MINHA COMUNIDADE”
Prevenção do Extremismo Violento
Chiúre continua inserido num contexto de vulnerabilidade associado ao conflito armado no norte de Moçambique. Em 2026, a intensificação da violência nos distritos do sul de Cabo Delgado voltou a provocar movimentos da população. É neste contexto que iniciativas de Prevenção do Extremismo Violento (PVE) procuram reforçar o conhecimento das comunidades sobre os factores de risco, suas capacidades económicas, a coesão social e as oportunidades para construir meios de vida mais resilientes.
É neste cenário de desafios e de procura por alternativas de subsistência que se insere a história de Laurinda Alfane, de 36 anos, mãe de seis filhos e residente no bairro Manuona, no distrito de Chiúre. Antes de integrar as actividades do Projecto de Prevenção do Extremismo Violento (PVE), Laurinda já desenvolvia um pequeno negócio na comunidade. Vendia roupas usadas adquiridas em fardos e fazia pequenas poupanças, mas reconhecia que lhe faltavam conhecimentos para gerir melhor o dinheiro do negócio e transformar a sua actividade numa fonte de rendimento mais sustentável.
“Eu fazia negócio e guardava dinheiro, mas não sabia separar o lucro do dinheiro do negócio. Às vezes, pensava que tinha lucro, mas quando voltava a comprar mercadoria já não tinha dinheiro suficiente.”
Antes do treinamento fornecido pela Fundação Nunisa com Apoio da Associação ActionAid Moçambique (AAMoz), Laurinda tinha dificuldade em controlar custos, receitas e lucros, o que limitava a capacidade de reinvestir e fazer o negócio crescer.
O treinamento em educação financeira e gestão de pequenos negócios mudou a forma como passou a administrar os seus recursos.
“Aprendi a separar o dinheiro do negócio e o meu lucro. Agora, quando vendo, já sei quanto devo guardar e quanto posso usar. Hoje consigo separar até 1500 MT como lucro”.
Para além de controlar o dinheiro, Laurinda passou a diversificar as suas fontes de renda, mantendo a venda de roupas e, em paralelo, a produção de bolinhos.
“Antes dependia mais de uma coisa. Agora vendo roupa e também faço bolinhos. Quando a roupa tem pouca saída, os bolinhos ajudam a compensar e a aumentar os meus lucros”.
O acesso ao grupo de poupança e crédito abriu outra possibilidade. Laurinda recorreu ao grupo para obter recursos destinados à compra de materiais para o negócio. Embora inicialmente pretendesse um empréstimo de 5.000 MT, começou com um valor menor e conseguiu reembolsá-lo.
“Eu queria pedir 5.000 MT, mas comecei com menos. Peguei 1000 MT e já consegui devolver. Isso deu-me confiança para continuar e pensar em aumentar o meu negócio”.
Hoje, a sua ambição é aumentar o volume de mercadoria e procurar fornecedores onde possa comprar a preços mais vantajosos.
“Quero continuar a poupar para conseguir comprar mais roupa. Actualmente busco a mercadoria na vila de Chiúre, mas pretendo chegar a cidade de Nampula, porque lá posso encontrar mercadoria mais diversificada e a um preço melhor”.
Para Laurinda, o crescimento do negócio representa maior capacidade para responder às necessidades dos seis filhos.
“Antes, havia momentos em que os meus filhos iam à escola sem uniforme, pastas e outro material escolar. Agora consigo organizar melhor o dinheiro e já posso suprir primeiro as necessidades deles”.
Através do treinamento em gestão de negócios e do acesso à poupança e ao crédito rotativo, Laurinda passou a gerir melhor o seu negócio e a obter melhores resultados. Com os lucros, conseguiu adquirir bens que antes não estavam ao seu alcance, como um painel solar.
“Antes não conseguia comprar algumas coisas porque o dinheiro não chegava. Com o negócio e o que aprendi, consegui ter mais lucro e comprei várias coisas como: painel solar, bateria e telefone. Aqui não temos energia. Com o painel já consigo ter luz à noite e ouvir rádio. Assim fico a saber o que está a acontecer no país".
A bateria permite carregar o telemóvel e outros equipamentos, enquanto o telefone passou a apoiar o próprio negócio.
“Com o telefone consigo fazer contas, falar com quem me vende roupa, perguntar preços e até fazer encomendas sem precisar de viajar. Também consigo falar com a minha família que está longe”.
A participação nas actividades do projecto também ampliou os conhecimentos de Laurinda sobre os factores que podem aumentar a vulnerabilidade de jovens e comunidades à radicalização e ao recrutamento para grupos violentos.
“Aprendi que quando uma pessoa não tem oportunidades, está vulnerável e aparece alguém a prometer dinheiro ou uma vida fácil, pode acabar por ser influenciada. Agora sei que devemos conversar e procurar alternativas.”
Esse conhecimento passou a fazer parte das conversas que mantém com os filhos e com outras pessoas da comunidade.
“Primeiro falo com os meus filhos, porque quero que eles saibam reconhecer esses riscos. Depois também partilho com outras pessoas da comunidade aquilo que aprendi".
Para Laurinda, o próximo passo é continuar a fortalecer o seu negócio, preservar os conhecimentos adquiridos e aplicar também o que aprendeu sobre prevenção do extremismo violento na sua vida e na comunidade.
“Antes eu trabalhava, mas não sabia onde estava o meu lucro. Hoje já sei como gerir melhor o meu negócio e também aprendi a reconhecer os riscos que podem afectar a nossa comunidade. Quero continuar a poupar, aumentar o meu negócio e ajudar a construir uma comunidade mais segura, para dar uma vida melhor aos meus filhos”.
A transformação vivida por Laurinda faz parte das mudanças que o Projecto de Prevenção do Extremismo Violento (PVE) procura promover nas comunidades. Implementado nas províncias de Cabo Delgado, Niassa e Nampula até finais de 2026, o projecto combina acções de prevenção do extremismo violento com o fortalecimento das capacidades económicas, da coesão social e dos meios de vida das comunidades, em parceria com a Associação ASSANA, a Fundação NUNISA, o Conselho Cristão de Moçambique (CCM Cabo Delgado e Niassa), a Associação Kuendeleya e o Movimento Activista Moçambique (MAM).