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“ANTES, A MINHA PRODUÇÃO ERA APENAS PARA CONSUMO; HOJE VENDO, TENHO RENDIMENTO E CONSIGO APOIAR O MEU FILHO NA UNIVERSIDADE"

“Antes, a minha produção era apenas para consumo; hoje vendo, tenho rendimento e consigo apoiar o meu filho na universidade"

Prevenção do Extremismo Violento

“Antes, o que eu produzia na machamba era principalmente para o consumo da minha família. Já tinha a machamba desde 2021, mas faltava-me capital para investir. O pouco que conseguia produzir servia para alimentar a família e eu tinha muitas dificuldades para conseguir dinheiro para outras necessidades”.

Mãe de oito filhos, todos estudantes, Maria Alberto, de 49 anos, conhece bem os desafios de garantir o sustento e a educação de uma família numerosa. Antes de dedicar-se à agricultura, obtinha algum rendimento através de um subsídio associado ao trabalho de alfabetização de adultos, actividade que posteriormente deixou de exercer. Sem outra fonte regular de rendimento, encontrou na agricultura uma alternativa para sustentar a família, mas a falta de capital fazia com que a produção permanecesse, essencialmente, para o consumo.

A aproximação ao projecto aconteceu ainda antes de Maria se tornar beneficiária directa. Ela já tinha ouvido falar do grupo de poupança através de vizinhas que participavam nas actividades e partilhavam com outras mulheres os conhecimentos adquiridos.

“Eu ouvia as mulheres a falar sobre o grupo e sobre aquilo que estavam a aprender. Fiquei interessada, porque também queria aprender a poupar e saber como podia melhorar a minha vida”.

A oportunidade de integrar o grupo surgiu quando uma das suas integrantes regressou à sua zona de origem, no distrito de Mecula, depois de ter sido forçada a abandonar a comunidade devido à acção dos insurgentes e se deslocado para Chiúre. Maria passou então a fazer parte do grupo, onde começou a aprender sobre poupança e gestão dos recursos.

“Eu não tinha como pedir um empréstimo no banco. Com o projecto, aprendi a poupar e consegui ter acesso a um empréstimo de 2.000 MT. Esse dinheiro ajudou-me a investir na minha produção”. 

A partir daí, a machamba começou a assumir um novo papel na vida de Maria. O espaço que antes servia sobretudo para garantir alimentos para a família passou também a ser uma actividade económica. Com o investimento, Maria diversificou a produção e passou a cultivar couve, cebola, tomate, alface, quiabo, repolho e pimento.

“O que antes era apenas para consumo, agora tornou-se uma fonte de rendimento. Hoje consigo garantir a alimentação da minha família e também vender a minha produção”.

A transformação não está no que produz e na forma como administra o rendimento. Depois de retirar os valores destinados à alimentação, às despesas escolares e a outras necessidades da família, Maria consegue actualmente obter um remanescente de cerca de 1.500 MT por mês.

“Hoje consigo ajudar o meu filho que está na universidade. Consigo pagar as propinas, os trabalhos e também comprar material escolar. Antes tinha muitas dificuldades para fazer isso”.

Para Maria, cada venda representa uma oportunidade de responder às necessidades imediatas da família e investir no futuro dos filhos. 

“Aprendi que os jovens precisam de estar ocupados e ter oportunidades. Quando têm alguma coisa para fazer, podem pensar no seu futuro e procurar alternativas positivas”.

A experiência de Maria no grupo de poupança trouxe mudanças económicas e confiança para partilhar a sua experiência com outras pessoas da comunidade.

“Hoje também converso com as pessoas sobre a prevenção do terrorismo. Digo que devemos procurar oportunidades e apoiar os jovens para que tenham coisas boas para fazer".

Para Maria, quando existem oportunidades de geração de rendimento, aprendizagem e participação comunitária, as pessoas passam a ter alternativas para enfrentar algumas das dificuldades que podem aumentar a sua vulnerabilidade.

“Eu digo às pessoas que não devem procurar dinheiro fácil. É melhor procurar uma oportunidade, aprender uma actividade e trabalhar para conseguir alguma coisa".

É também neste espaço que Maria associa os grupos de poupança à construção de relações de confiança e de coesão dentro da comunidade. Mais do que um mecanismo para guardar dinheiro, o grupo tornou-se, para ela, um espaço de aprendizagem, apoio e partilha.

“Nos grupos aprendemos a poupar,  trabalhar juntos, a conversar e a ajudar uns aos outros. Isso é importante para termos paz na comunidade".

Hoje, Maria procura transformar a sua experiência num exemplo para outras pessoas, particularmente para os jovens.

“As pessoas gostam de ouvir porque olham para o meu exemplo. Eu comecei com pouco e hoje consigo vender a minha produção e ajudar os meus filhos”.

O próximo passo, diz, é crescer. Maria sonha em aumentar a produção e melhorar os meios disponíveis para trabalhar na machamba, incluindo a aquisição de enxadas, sementes e uma motobomba.

“Quero ser forte no meu negócio. Quero aumentar a minha produção e, no futuro, ter condições para ajudar outros jovens a trabalhar. Gostaria de ter mais ferramentas, como enxadas, sementes, uma motobomba e outros materiais para produzir mais”.

A sua ambição ultrapassa, assim, o crescimento da própria actividade. Maria imagina uma machamba maior, capaz de gerar mais rendimento e, potencialmente, criar oportunidades de ocupação para outros jovens da comunidade.

“Antes eu produzia para comer. Hoje produzo para comer e para vender. Quero continuar a crescer, porque sei que posso fazer mais”.

Tal como Maria, vários beneficiários viram suas vidas transformadas como parte das mudanças que o Projecto de Prevenção do Extremismo Violento (PVE) procura promover nas comunidades. 

No caso de Maria, a mudança começou com a decisão de entrar no grupo de poupança porque viu outras mulheres a aprender e a transformar as suas vidas. Hoje, é ela quem partilha a sua experiência e incentiva outras pessoas a procurar oportunidades e a escolher caminhos positivos.

Implementado nas províncias de Cabo Delgado, Niassa e Nampula até finais de 2026, o projecto combina acções de prevenção do extremismo violento com o fortalecimento das capacidades económicas, da coesão social e dos meios de vida das comunidades, em parceria com a Associação ASSANA, a Fundação NUNISA, o Conselho Cristão de Moçambique (CCM Cabo Delgado e Niassa), a Associação Kuendeleya e o Movimento Activista Moçambique (MAM).