Antes, os meus filhos tinham de trocar o único uniforme”: a história de Cefa de Mureira
Duas crianças, um único uniforme. Uma rotina marcada pela partilha forçada, pela vergonha silenciosa e pelo risco permanente de abandono escolar. “Tínhamos também desafios para garantir alimentação. Às vezes era muito difícil. Eu sentia-me triste por não conseguir dar o básico aos meus filhos”. A poupança mudou a minha vida.
Nos distritos de Nangade, Macomia, Mocímboa da Praia e Mueda, a insurgência armada protagonizada por grupos não estatais deixou marcas profundas: casas destruídas, famílias separadas, mercados encerrados e meios de vida interrompidos.
Perante a violência, muitas famílias não tiveram outra alternativa senão fugir. Algumas deslocaram-se para outros distritos e províncias do país; outras procuraram refúgio no distrito de Pemba, capital de Cabo Delgado, onde hoje tentam reconstruir as suas vidas em bairros como Maringanha e Paquitequete. Longe das suas terras de origem, carregam memórias de perda, mas também a esperança de recomeçar.
Para muitas mulheres deslocadas e comunidades de acolhimento, a paz passou a ser mais que uma palavra, tornou-se uma urgência diária. A necessidade de garantir alimentação, educação para os filhos e uma fonte estável de rendimento tornou-se prioridade absoluta num contexto marcado pela vulnerabilidade e pelo risco de exclusão social.
É neste cenário que o Projecto Prevenção do Extremismo Violento, implementado pelo Conselho Cristão de Moçambique – Delegação de Cabo Delgado, com financiamento do Fundo Global de Resiliência Comunitária, através da Agência de Desenvolvimento Integrado do Norte, tem vindo a transformar vidas.
Nos bairros de Maringanha e Paquitequete, em Pemba, mulheres e homens deslocados e membros das comunidades de acolhimento participam em formações de literacia financeira, gestão de pequenos negócios, promoção da coesão social e convivência pacífica, além de integrarem grupos de poupança e crédito rotativo.
Mais do que assistência imediata, a iniciativa aposta na capacitação e na reconstrução sustentável de meios de vida, devolvendo dignidade, autonomia e reforçando a resiliência comunitária num território profundamente marcado pela violência.
“Antes, os meus filhos tinham de trocar o único uniforme”
Cefa de Mureira, 29 anos, mãe de cinco filhos, é um dos exemplos de uma história de transformação. Apesar de ser casada, enfrentava dificuldades constantes. O marido é ajudante de pedreiro e nem sempre consegue trabalho. A irregularidade da renda afectava directamente a alimentação e, sobretudo, a educação das crianças.
“Enfrentava muitos desafios e necessidades. Não conseguia garantir uniforme para cada um dos meus filhos. Eles tinham que trocar. Um colocava, ia à escola, e quando voltava, tirava para o outro poder ir uniformizado”, recorda, com a voz triste.
Duas crianças, um único uniforme. Uma rotina marcada pela partilha forçada, pela vergonha silenciosa e pelo risco permanente de abandono escolar.
“Tínhamos também desafios para garantir alimentação. Às vezes era muito difícil. Eu sentia-me triste por não conseguir dar o básico aos meus filhos”.
A poupança mudou a minha vida
Cefa integra um grupo de poupança composto por 25 mulheres e 5 homens no seu bairro. No mesmo bairro existe mais um grupo com 30 membros, e em Paquitequete há dois grupos de 30 participantes cada.
No total, a iniciativa alcança 120 beneficiários, dos quais 20 são deslocados provenientes de Nangade, Macomia, Mocímboa da Praia e Mueda.
Como Cefa, outras dezenas de mulheres encontraram nestes grupos não apenas um espaço de poupança, mas um espaço de reconstrução de esperança.
“Antes do treinamento em literacia financeira eu não fazia poupança, não sabia como organizar o pouco dinheiro que entrava em casa”, conta.
Após participar nas formações promovidas pelo projecto, Cefa começou a poupar semanalmente. Hoje contribui com 600 meticais por semana. Num determinado ciclo, solicitou um empréstimo de 3.000 meticais ao grupo.
Com esse valor, iniciou uma pequena banca de venda de arroz, feijão, temperos, coco, pimenta, tomate, amendoim pilado e cebolas.
“Eu tinha medo no início. Mas lembrei-me do que aprendemos: planificar, controlar despesas e reinvestir o lucro. Comecei pequeno, mas com organização”.
Ela conseguiu reembolsar integralmente o empréstimo e, actualmente, obtém um lucro mensal de cerca de 3.000 meticais.
Da assistência à autonomia
O diferencial do projecto não está apenas na geração de rendimento, mas na mudança de paradigma: da dependência à autonomia.
Ao invés de assistência directa contínua, o projecto investiu na transferência de conhecimento e no fortalecimento de capacidades, promovendo uma abordagem baseada em direitos humanos onde os beneficiários deixam de ser vistos como receptores passivos e passam a ser sujeitos activos do seu próprio desenvolvimento.
Hoje, Cefa afirma com orgulho:
“Agora compro material escolar e consegui comprar uniforme para todos os meus filhos. Já não precisam de trocar. Cada um tem o seu".
O impacto vai além do rendimento:
“Sinto-me diferente. Tenho mais autoestima porque consigo contribuir nas despesas da casa. Já não dependo só do meu marido. Eu também sustento a minha família".
Ao garantir meios de vida sustentáveis, o projecto reduziu factores de vulnerabilidade que, em contextos fragilizados pela violência, podem aumentar o risco de exclusão social e marginalização.
“A paz começa na comunidade”
Outro pilar essencial do projecto foi a promoção da coesão social e convivência pacífica.
“Também aprendemos sobre paz. Que a paz começa na comunidade, na forma como resolvemos os nossos conflitos, no respeito entre vizinhos”, partilha Cefa.
Num território marcado por desconfiança e traumas colectivos, fortalecer o diálogo comunitário é uma estratégia concreta de prevenção do extremismo violento.
Ao participarem juntas nos grupos de poupança, deslocadas e nativas, as mulheres constroem pontes, partilham experiências e reduzem tensões.
Como Cefa, outras trinta mulheres do seu grupo testemunham melhorias significativas nas suas vidas. A poupança deixou de ser apenas uma prática financeira; tornou-se um instrumento de reconciliação e reconstrução social.
Cefa não quer parar na banca improvisada.
“Continuo a poupar porque tenho o sonho de crescer no negócio. Já penso em construir uma barraca para servir de mercearia”.
A sua visão vai além da sobrevivência: é um projecto de futuro.
“Se não tivesse este projecto iria sofrer muito. Por isso sempre agradeço. A poupança ajuda muito. Eu sou exemplo. Consegui sustentar os meus filhos, comprar roupa, ter lucro. Hoje tenho esperança”.
A história de Cefa é uma entre 120. É uma entre muitas mulheres que, através da capacitação, descobriram que a resiliência também se constrói com conhecimento, organização e solidariedade.
Ao investir em habilidades, literacia financeira e coesão social, o projecto demonstra que prevenir o extremismo violento passa por criar oportunidades, restaurar dignidade e fortalecer comunidades.
“Agradeço muito ao Conselho Cristão de Moçambique, à ActionAid, ao GCERF e à ADIN. Porque hoje consigo viver com mais dignidade”, conclui.
Num território onde a violência tentou apagar sonhos, Cefa ergueu uma banca de produtos e, com ela, reconstruiu a própria história.
E como ela, muitas outras mulheres estão a provar que, quando se investe em direitos, conhecimento e coesão social, a paz deixa de ser promessa torna-se prática diária.
A iniciativa enquadra-se no Projecto Prevenção do Extremismo Violento (PVE), implementado em Cabo Delgado, Niassa e Nampula, até 2026, pela ActionAid Moçambique em parceria com a Associação ASSANA, Fundação NUNISA, Conselho Cristão de Moçambique (CCM Cabo Delgado e Niassa), Movimento Activista Moçambique (MAM) e Associação Kuendeleya com o apoio do Fundo Global de Engajamento e Resiliência da Comunidade (GCERF) através da Agência de Desenvolvimento Integrado do Norte (ADIN).