“ANTES SENTIA-ME EXCLUÍDO, HOJE JÁ LEIO EM PÚBLICO”: A HISTÓRIA DE ALY CAISSE EM NAOSSA
Aly Caisse, tem 35 anos e vive na comunidade de Naossa, distrito de Lichinga, província de Niassa. Devido a vários factores, o jovem não conseguiu frequentar a escola quando era mais novo, mas hoje reencontrou o seu caminho, fala com confiança, participa nas reuniões comunitárias e lê em voz alta sem hesitar — algo que, há poucos anos, parecia impossível.
“Eu sempre tive vontade de ler e escrever, mas não sabia como começar”, recordou Aly, com um sorriso tímido. Durante muito tempo, essa limitação marcou a sua vida e a forma como se via dentro da própria comunidade.
“Antes, eu sentia-me excluído. Via outros jovens a ler e a escrever e isso deixava-me mal”, contou.
A mudança começou quando ouviu falar do círculo de Reflect, uma abordagem de aprendizagem participativa promovida no âmbito do projecto de Prevenção do Extremismo Violento (PVE). Curioso e determinado, decidiu aproximar-se. “Ouvi falar do Reflect e fui ver. Foi ali que tudo começou”, diz.
Nos encontros do círculo, Aly encontrou aulas e um espaço de diálogo, partilha e crescimento. Com o apoio dos facilitadores, começou a dar os primeiros passos na leitura, na escrita e na numeracia.
“O círculo de Reflect, através dos facilitadores, ajudou-me a conseguir este feito. Agora consigo ler, consigo escrever”, afirmou.
A sua voz, antes retraída, ganhou força. “Agora fico mais à vontade para ler em público, principalmente durante as nossas reuniões”, acrescentou.
Para Aly, o impacto é claro e pessoal. “Hoje sinto que faço parte. Já não fico de lado. Posso contribuir, posso aprender e posso ajudar outros também”, explicou.
A entrada no Reflect não aconteceu por acaso. Aly lembra-se bem do momento em que tudo mudou.
“Um dia, os líderes da comunidade convidaram cerca de 30 jovens para integrar um grupo de poupança e crédito rotativo. Foi a partir daí que entrei no Reflect”, explicou.
Hoje, Aly é um exemplo vivo de como o investimento na juventude pode abrir caminhos e prevenir vulnerabilidades. Ao adquirir competências básicas e participar activamente na vida comunitária, sente-se mais incluído, mais útil e mais preparado para enfrentar os desafios.
O projecto PVE, no qual Aly participa, aposta na alfabetização e engajamento dos jovens, dotando-os de capacidades práticas e pensamento crítico, elementos essenciais para reduzir o risco de radicalização e fortalecer a coesão social.
Nos círculos de Reflect, espalhados por várias comunidades do distrito de Lichinga, jovens discutem temas relevantes do seu quotidiano, aprendem a analisar a sua realidade e a procurar soluções locais. Em Naossa, por exemplo, participam 90 jovens, dos quais 33 são mulheres e 57 homens, num esforço colectivo de aprendizagem e transformação social.
Importa referir que esta iniciativa está inserida no âmbito do projecto “Prevenção do Extremismo Violento” (PVE), que conta com a participação da Associação ActionAid Moçambique (AAMoz), Fundação MASC e da Associação de Apoio e Assistência Jurídica às Comunidades (AAAJC), coordenados pela Agência de Desenvolvimento Integrado do Norte (ADIN) com o financiamento do Fundo Global de Engajamento e Resiliência da Comunidade (GCERF).