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“Com o dinheiro das vendas dos ovos conseguimos usar para comprar muitas coisas para casa e, graças a esta actividade, consegui abrir uma lojinha”, Lídia Bila

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“Antes dedicava-me apenas à agricultura e as coisas eram um pouco difíceis. Por vezes perdia tudo devido à seca e outras vezes devido às cheias e inundações"

Na comunidade de Machiana, no distrito da Manhiça, o som das galinhas e a recolha diária de ovos estão a marcar uma mudança importante na vida de várias famílias. A criação de galinhas tornou-se numa fonte de renda e numa oportunidade de empoderamento para mulheres que procuram alternativas para melhorar as condições de vida dos seus agregados familiares.

Em Moçambique, a produção avícola tem vindo a crescer gradualmente e desempenha um papel importante na segurança alimentar e na economia rural. Estimativas indicam que o país produz milhões de dúzias de ovos por ano, enquanto milhares de pequenos produtores dependem da criação de galinhas para complementar o rendimento familiar. O sector é particularmente relevante para mulheres rurais, que representam uma grande parte da força de trabalho agrícola. Dados nacionais indicam que mais de 70% da população moçambicana vive em zonas rurais e depende da agricultura para sobreviver, sendo as mulheres responsáveis por uma grande parte da produção alimentar do país.

Apesar deste papel central, muitas mulheres enfrentam desafios que incluem o acesso limitado a recursos produtivos, financiamento, mercados e oportunidades de formação. Em Machiana, estas limitações tornam difícil transformar actividades tradicionais de subsistência em fontes estáveis de rendimento. A dependência quase exclusiva da agricultura torna também as famílias vulneráveis às mudanças climáticas, como secas, cheias e inundações, que frequentemente resultam na perda das colheitas e na redução da segurança alimentar.

Foi para responder a estes desafios que a Associação ActionAid Moçambique (AAMoz) tem vindo a trabalhar com mulheres e comunidades locais, para promover iniciativas que fortalecem a autonomia económica feminina e valorizam soluções comunitárias. Um exemplo concreto é o Projecto Comunitário de Criação de Poedeiras para Produção de Ovos, financiado pela AAMoz e gerido por um grupo comunitário composto por sete membros provenientes de círculos Reflect, associações de camponeses, sobreviventes de violência baseada no género e activistas comunitários.

O projecto consiste na criação de galinhas poedeiras em baterias com capacidade para 120 aves, permitindo uma produção que pode atingir até 120 ovos por dia. Os ovos são vendidos em mercados locais, mercearias e pequenos supermercados, gerando rendimento para as mulheres envolvidas e contribui para a segurança alimentar das suas famílias. 

É neste contexto que surge a história de Lídia Tomás Bila, de 56 anos, mãe de sete filhos e integrante de uma cooperativa comunitária formada por mulheres da comunidade de Machiana. Antes, Lídia dedicava-se exclusivamente à agricultura de subsistência, uma actividade frequentemente afectada por fenómenos climáticos extremos.

“Antes dedicava-me apenas à agricultura e as coisas eram um pouco difíceis. Por vezes perdia tudo devido à seca e outras vezes devido às cheias e inundações. Antes não conseguia ajudar nas despesas da casa, mas hoje consigo ajudar”, conta Lídia.

Com a criação da cooperativa e o apoio do projecto de produção de ovos, Lídia e outras mulheres passaram a gerir uma pequena unidade de produção avícola. O trabalho começa logo nas primeiras horas do dia, com a limpeza do espaço, a pesagem da ração e o cuidado com as aves.

“Quando chego faço limpeza, peso ração e dou às galinhas. Também dou água. Por vezes há algumas galinhas doentes e separamos e tentamos dar comida e remédio para recuperarem”, explica.

Na comunidade, os ovos tornaram-se uma importante fonte de alimento e também um produto comercializado localmente. A renda gerada pela venda permite que as mulheres contribuam para as despesas familiares e invistam em outras actividades económicas.

“Com o dinheiro da venda dos ovos conseguimos usar para comprar coisas muitas coisas para casa e, graças a esta actividade, consegui abrir uma lojinha onde vendo roupas, uniformes escolares, calções, chinelos e pão. Também tenho um pequeno salão de corte de cabelo”, explicou Lídia.

Para além de melhorar as condições de vida da sua família, Lídia também partilha os conhecimentos adquiridos com outras mulheres da comunidade, incentivando-as a desenvolver actividades produtivas.

“Também ensino outras mulheres na minha comunidade a fazerem alguma coisa e não apenas ficarem sentadas”, afirma.

Hoje, a cooperativa de Machiana continua a crescer, alimentada pela esperança de que a produção possa aumentar no futuro e gerar ainda mais oportunidades para as mulheres da comunidade.

“O projecto ajuda-nos a fazer coisas boas. Esperamos que no futuro consigamos aumentar a produção para ter mais dinheiro e conseguir aumentar também a mercadoria na loja”, diz Lídia.

Assim como Lídia, outras mulheres de Machiana, na Manhiça viram sua vida mudar com esta iniciativa de geração de renda e hoje são agentes de mudança na sua comunidade.