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GCERF E ADIN INICIAM TREINAMENTO PROVINCIAL SOBRE PREVENÇÃO DO EXTREMISMO VIOLENTO EM LICHINGA

capa monitoria

“É uma honra fazer parte deste treinamento. Estamos a tratar assuntos que não sabia. Estas capacitações deveriam acontecer sempre"

Arrancou nesta segunda-feira, (13), na cidade de Lichinga, província de Niassa, o treinamento provincial em Prevenção e Combate ao Extremismo Violento (PCEV), uma iniciativa promovida pelo Fundo Global de Engajamento e Resiliência da Comunidade (GCERF) em parceria com a Agência de Desenvolvimento Integrado do Norte (ADIN)

A treinamento terá lugar durante três dias e reúne representantes do governo, sociedade civil e líderes comunitários, com o objectivo de reforçar capacidades locais para enfrentar o fenómeno do extremismo vioelnto.

A cerimónia de abertura do treinamento foi dirigida pelo Administrador do Distrito de Lichinga, David Machimbuko, em representação da Governadora da Província de Niassa, que sublinhou a relevância da capacitação no contexto actual de desafios de segurança na região norte do país. 

Na sua intervenção, Machimbuko começou por agradecer ao GCERF pela facilitação do treinamento, tendo sublinhado que a iniciativa surge num momento crucial para o país.

“Vivemos momentos críticos por causa do extremismo violento, por isso é uma honra para nós acolher este treinamento sobre um tema tão importante. Esperamos que cada participante saia daqui mais preparado, com conhecimentos sólidos sobre como prevenir e lidar com este fenómeno”, afirmou.

O dirigente partilhou ainda a sua experiência pessoal enquanto Administrador do distrito de Palma, na província de Cabo Delgado, onde começou a notar sinais iniciais de tensão social e religiosa.

“Quando tomei posse como administrador de Palma, em 2016, procurei compreender o contexto local e percebi diferenças culturais significativas. Dois meses depois, recebi uma carta assinada por 86 membros de uma comunidade muçulmana a pedir a minha retirada. Alegavam que eu estava a influenciar o modo de vida deles”, recordou.

Segundo explicou, a situação levou à necessidade de diálogo com diferentes lideranças religiosas, onde identificou a existência de vários grupos com visões distintas dentro da mesma comunidade.

“Após encontros com líderes religiosos, percebi que havia diferentes correntes dentro do Islão, o que exigia maior sensibilidade, capacidade de escuta e diálogo por parte das autoridades”, acrescentou.

Machimbuko aproveitou a ocasião para reforçar a importância da vigilância comunitária e da identificação precoce de sinais de radicalização, sobretudo entre os jovens.

“Devemos reforçar a nossa capacidade de interpretação dos sinais à nossa volta. Muitas vezes, as mudanças começam de forma silenciosa. É preciso estarmos atentos às pequenas transformações no comportamento das pessoas, especialmente dos jovens, para conseguirmos agir preventivamente”, alertou.

A cerimónia de abertura contou também com a chefe dos escritórios da ADIN em Niassa, Lizete Dinala, e é facilitado por Manuel Sambo, especialista em estudos de segurança, análise de riscos geopolíticos, paz e desenvolvimento. O programa formativo aborda conceitos fundamentais do extremismo violento, análise de factores de risco e de protecção, bem como estratégias práticas de prevenção. 

O treinamento tem como grupo-alvo quadros dos governos provinciais e distritais, membros das Forças de Defesa e Segurança, técnicos dos sectores sociais, líderes comunitários e religiosos, bem como representantes de organizações da sociedade civil, associações juvenis e de mulheres.

Lídia João, do Fórum das Organizações Femininas de Niassa (Fofen), explicou que este treinamento vem dotá-las de conhecimentos sobre prevenção do extremismo violento.

“É uma honra fazer parte deste treinamento. Estamos a tratar assuntos que não sabia. Estas capacitações deveriam acontecer sempre. Penso que mais jovens deveriam ter informações sobre prevenção do extremismo violento. Que não termine por aqui, deveria continuar nas nossas comunidades”, explicou.  

Por sua vez, Tino Daniel, da ActionAid Moçambique, fez menção a importância do treinamento como uma oportunidade estratégica para garantir maior envolvimento e apropriação das iniciativas por parte das estruturas locais.

“Este treinamento vai permitir que, de forma natural, as estruturas do governo e os líderes comunitários se apropriem do projecto e das acções que estamos a implementar no terreno. Há uma grande diferença entre trabalhar apenas com beneficiários e envolvê-los activamente no processo. O que buscamos aqui é uma acção conjunta, que assegure uma melhor réplica e sustentabilidade das intervenções”, afirmou.

Entre os principais resultados esperados espera-se a capacitação de cerca de 25 a 35 participantes na província, o reforço das redes locais de coordenação, e a elaboração de planos de acção concretos para a prevenção do extremismo violento ao nível local.

O norte do país continua a enfrentar grandes desafios decorrentes da acção de grupos extremistas violentos, particularmente desde 2017 na província de Cabo Delgado, com impactos negativos na segurança, desenvolvimento socioeconómico e protecção das populações. Mais recentemente, há registo de sinais preocupantes de alastramento do fenómeno para novas áreas, incluindo distritos da província de Niassa e Nampula, o que reforça a necessidade de acções preventivas coordenadas.

Importa referir que o projecto Prevenção do Extremismo Violento (PVE) está a ser implementado pela Associação ActionAid Moçambique (AAMoz), em parceria com a ADIN, nas províncias de Cabo Delgado, Niassa e Nampula, com término até finais de 2026. Na província de Niassa, as actividades decorrem nas comunidades de Lussanhando, Naossa, Matemangue e Malica no distrito de Lichinga.