MANHIÇA RECONSTRÓI-SE APÓS AS CHEIAS ENQUANTO MULHERES E JOVENS LIDERAM A RECUPERAÇÃO
Cinco meses depois das fortes chuvas e cheias que atingiram Moçambique, mulheres líderes e jovens facilitadores continuam a liderar esforços para restaurar a protecção, o apoio social e a estabilidade em várias comunidades do distrito da Manhiça.
Na província de Maputo, as cheias afectaram a vida de milhares de famílias, tendo destruído casas, campos agrícolas, zonas de pastagem e infra-estruturas sociais nos postos administrativos de Manhiça-Sede, Xinavane, Calanga, 3 de Fevereiro e Ilha Josina Machel.
Mulheres e jovens do distrito têm estado na linha da frente da recuperação, e trabalhanm em conjunto com a Associação ActionAid Moçambique (AAMoz) e o Núcleo Académico para o Desenvolvimento Comunitário (NADEC), através do estabelecimento de espaços seguros para mulheres e jovens, bem como espaços amigos da criança, que prestam apoio psicossocial e reforçam o bem-estar das comunidades afectadas pelas cheias.
Os espaços seguros criados em Buna e Xinavane continuam a acolher e proteger mulheres, raparigas e crianças, onde são realizadas sessões de apoio psicossocial, partilha de experiências traumáticas, aconselhamento, actividades recreativas, debates sobre prevenção da violência baseada no género e encaminhamento de casos.
Paralelamente, os espaços amigos da criança promovem jogos educativos, música, desenho, leitura, apoio à aprendizagem e actividades de socialização para ajudar as crianças a recuperar emocionalmente após as cheias.
A informação foi avançada à margem de uma visita de monitoria realizada por uma equipa da ActionAid Internacional, actualmente em Maputo para uma missão de trabalho de três dias no distrito da Manhiça. Na segunda-feira, primeiro dia da visita, a delegação deslocou-se ao posto administrativo de Xinavane, uma das zonas severamente afectadas pelas cheias deste ano.
Durante a resposta de emergência, jovens do Movimento Activista do Distrito da Manhiça desempenharam um papel fundamental na identificação das famílias prioritárias e na distribuição de kits de emergência às famílias afectadas. Foram distribuídos 247 kits contendo produtos alimentares, materiais de higiene, redes mosquiteiras e produtos para tratamento de água ajudou as famílias a recuperarem em segurança e a reduzir os riscos de doenças após as cheias.
Para muitas famílias, as marcas emocionais deixadas pelas cheias continuam vivas. Ermelinda Boene, facilitadora do espaço amigo da criança em Xinavane, recorda os momentos difíceis vividos durante o período das inundações.
“Durante as cheias sofremos muito. A Escola Santa Rita foi um dos locais mais afectados. Havia pacientes nos hospitais e não tínhamos comida nem medicamentos. No início pensávamos que a água não chegaria às casas, mas chegou. Muitas famílias ficaram submersas porque não havia barcos suficientes. Algumas pessoas nem conseguiram realizar funerais para se despedirem dos seus familiares”, contou.
Apesar do medo que ainda surge sempre que chove intensamente, as facilitadoras em Xinavane continuam a organizar sessões de apoio psicossocial, debates comunitários e actividades de protecção para ajudar as famílias a recuperar a estabilidade e a confiança durante o processo de recuperação.
Muitas famílias que vivem em zonas propensas a cheias continuam a enfrentar traumas e desafios de recuperação a longo prazo, relacionados com deslocações, falta de meios de subsistência e infra-estruturas inadequadas.
“Sempre que chove agora, as pessoas ficam assustadas. Pensam que a cheia pode voltar porque ainda se lembram daqueles momentos difíceis. Agora também enfrentamos problemas de emprego porque a água destruiu muitas coisas. Os campos continuam inundados e as famílias dependem da agricultura para sobreviver”, explicou.
Todos os dias, Ermelinda trabalha nos espaços amigos da criança para devolver esperança e fortalecer a confiança das crianças após as cheias.
Isac Samuel, facilitador do espaço amigo da criança, explicou que as actividades procuram envolver positivamente os jovens e afastá-los de comportamentos de risco.
“Apoiamos os jovens e juntamo-los através do futebol para que possam socializar. Muitos não têm emprego formal e fazemos isto para evitar que entrem na criminalidade”, afirmou.
Ivone Matimbe, também facilitadora do espaço amigo da criança, destacou os progressos observados no bem-estar emocional das crianças.
“As crianças tinham muitas dificuldades de aprendizagem, pouca motivação e algumas eram extremamente tímidas. Mas agora brincam, cantam e estão muito mais felizes. As aulas e actividades no espaço amigo da criança ajudaram-nas bastante depois das cheias, mas muitas crianças e famílias ainda precisam de apoio psicossocial e educacional contínuo”, disse.
Embora a recuperação continue desigual na Manhiça devido à perda de meios de subsistência e aos riscos climáticos, muitas famílias afectadas estão a retomar a agricultura e a reconstruir as suas fontes de rendimento com apoio em sementes, mudas, insumos e ferramentas agrícolas, ajudando os agregados familiares a restaurar a produção alimentar e as fontes de rendimento antes da próxima época agrícola.
O fortalecimento contínuo da recuperação liderada pelas comunidades, do apoio psicossocial, dos serviços de protecção e da resiliência climática continua a ser essencial para ajudar as comunidades a recuperarem com dignidade.