OPERAÇÃO DE RESGATE EM MANHIÇA SALVA CENTENAS DE PESSOAS SITIADAS PELAS CHEIAS
A evacuação para zonas seguras representou um avanço importante na resposta à crise humanitária que afecta o distrito.
Uma operação de resgate de grande envergadura no distrito de Manhiça, província de Maputo, permitiu salvar centenas de pessoas que se encontravam sitiadas pelas cheias nas zonas de Xinavane, Ilha Josina Machel e Buna.
A acção contou com o apoio de oito helicópteros de salvamento da força aérea sul africana e embarcações, fundamentais para alcançar comunidades isoladas pela subida rápida das águas.
Muitas das vítimas foram resgatadas depois de passarem horas, e em alguns casos dias, penduradas em árvores ou sobre telhados de casas submersas. A evacuação para zonas seguras representou um avanço importante na resposta à crise humanitária que afecta o distrito.
Na zona de 3 de Fevereiro, famílias exaustas chegavam em massa de helicópteros provenientes de diferentes pontos devastados. Mulheres, raparigas, jovens e crianças chegavam desidratados, alguns com ferimentos resultantes de quedas ou da exposição prolongada à água fria. Apesar do cenário caótico, a recepção decorreu de forma organizada, com equipas no terreno preparadas para realizar triagem imediata.
Um papel determinante foi desempenhado pelo Comité Local de Gestão do Risco de Desastres da zona de 3 de Fevereiro, cujos membros foram treinados no ano passado em acções antecipatórias de resposta a desastres pela Associação ActionAid Moçambique (AAMoz). A equipa apoiou a retirada das vítimas dos helicópteros, encaminhando-as para primeiros socorros antes do registo formal, sempre a garantir prioridade aos casos mais vulneráveis.
Entre os resgatados, as histórias de perda total multiplicam-se. Joana Mulhovo, uma das vítimas evacuadas, relatou que “perdi quase tudo em Buna. Eu saí sem nada, não tenho mantas, não tenho roupa, não tenho nada”.
Pedro Artur, resgatado em Xinavane, conta que viveu momentos difíceis “desde sábado sem comer, ficamos no tecto de uma casa. Chegamos bem e agora estamos num lugar melhor, mas perdemos tudo”, disse Artur.
Dados do Instituto Nacional de Gestão do Risco de Desastres (INGD) indicam que, até 19 de Janeiro de 2026, quase 595 mil pessoas foram afectadas pelas cheias em todo o país, número que continua a aumentar devido à extensão das inundações e à descarga de água das barragens, que se mantêm acima do nível de alerta. Cerca de 78.500 casas foram destruídas, danificadas ou inundadas.
Considerando uma média de cinco pessoas por agregado familiar, estima-se que mais de 392 mil indivíduos estejam potencialmente deslocados. Os centros de acomodação acolhem actualmente mais de 60.800 pessoas, sendo 75% concentradas na província de Gaza. Em Manhiça, os esforços concentram-se agora na expansão destes espaços para receber os recém-resgatados.
A Associação ActionAid Moçambique (AAMoz) e parceiros continuam a monitorar a situação no terreno, enquanto o Governo apela ao reforço do apoio logístico e humanitário para evitar novas tragédias nas zonas baixas e mais expostas.