“ESTAMOS A SALVAR VIDAS COM O QUE APRENDEMOS”: RAFAEL MACAMO, NA LINHA DA FRENTE DA RESPOSTA ÀS CHEIAS NA MANHIÇA
“O centro ficou cheio em pouco tempo. Havia muitas mulheres, crianças e idosos. Foi uma situação muito difícil, porque percebíamos que o espaço já não tinha condições”
Rafael Macamo é membro do Comité Local de Gestão e Redução do Risco de Desastres da zona de 3 de Fevereiro, no distrito da Manhiça, província de Maputo. Desde que as cheias começaram a atingir severamente várias comunidades do distrito, Rafael e outros membros do comité têm trabalhado incansavelmente, de forma voluntária, para apoiar famílias que chegam diariamente à zona em busca de segurança.
“Todos os dias chegam pessoas que perderam tudo. Algumas vêm só com a roupa que têm no corpo. O nosso trabalho é recebê-las, acalmá-las e garantir que tenham pelo menos um lugar seguro para ficar. O que queremos é salvar vidas agora, mas também preparar melhor as comunidades para o futuro. As cheias estão a tornar-se mais frequentes e precisamos estar prontos”, explicou Rafael, enquanto acompanha a movimentação no centro de reassentamento.
Para desempenhar esta função, Rafael recebeu, no ano passado, uma formação em acções antecipatórias de desastres, promovida pela Associação ActionAid Moçambique (AAMoz). Uma capacitação que hoje faz toda a diferença no terreno.
“Tivemos uma formação sobre acções antecipatórias e hoje estamos aqui a colocar isso em prática. O que aprendemos foi muito importante. Agora é tempo de executar”, afirmou.
Quando as cheias começaram a afectar o distrito da Manhiça, Rafael foi destacado para apoiar as vítimas no centro de reassentamento da Escola Primária de 3 de Fevereiro. Inicialmente, o local acolhia mais de 600 pessoas, mas rapidamente ficou superlotado, à medida que novas famílias continuavam a chegar, forçadas a abandonar as suas casas submersas.
“O centro ficou cheio em pouco tempo. Havia muitas mulheres, crianças e idosos. Foi uma situação muito difícil, porque percebíamos que o espaço já não tinha condições”, recordou.
Perante este cenário, o governo distrital decidiu abrir um novo centro de reassentamento no Instituto de Formação de Professores de Chibututuine, para aliviar a pressão e garantir melhores condições às famílias deslocadas.
Rafael e os seus colegas do comité acompanham todo o processo de evacuação, acolhimento e encaminhamento das vítimas, sempre com empatia e humanidade.
“Nós cuidamos das pessoas com carinho. Sabemos que estão traumatizadas, com medo, e precisam mais do que comida — precisam de atenção, respeito e dignidade”, sublinhou.
As necessidades continuam a ser enormes. “O nosso maior desafio agora é garantir que as pessoas tenham onde ficar, alimentação, higiene, amor e cuidados básicos. Há muitas crianças e mulheres grávidas que precisam de atenção especial”, explicou Rafael, chamando atenção para o impacto diferenciado das cheias sobre mulheres e raparigas, que enfrentam riscos acrescidos em contextos de deslocação.
No âmbito do trabalho de resposta às cheias, Rafael e outros membros do comité receberam ainda uma formação rápida sobre como receber pessoas evacuadas por helicópteros, uma realidade cada vez mais frequente devido ao isolamento de várias comunidades.
“Aprendemos como agir quando as pessoas chegam de helicóptero, muitas vezes em choque. Isso ajuda a evitar confusão e a garantir mais segurança”, contou.
Refira-se que a Associação ActionAid Moçambique (AAMoz) realizou recentemente um levantamento de necessidades nos distritos da Manhiça e Boane, num contexto em que dados do Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres (INGD) indicam que cerca de 779.528 pessoas foram afectadas pelas cheias em todo o país, com o registo de 131 óbitos. Um cenário que reforça a urgência de respostas humanitárias coordenadas e centradas nas pessoas mais vulneráveis.