“SAÍMOS DE CASA SEM NADA, SÓ COM OS NOSSOS FILHOS”: A HISTÓRIA DE FELIZARDA CHAÚQUE, JOVEM REASSENTADA APÓS AS CHEIAS EM BOANE
“Aqui no centro as coisas melhoraram. Recebemos colchões e, no início, houve dias em que comíamos apenas uma vez. Agora, pelo menos, conseguimos comer todos os dias”, relatou.
Felizarda Chaúque vivia na zona de 25 de Setembro, no distrito de Boane, província de Maputo. Como milhares de outras famílias, viu a sua vida mudar drasticamente quando as águas começaram a subir de forma rápida e descontrolada. Sem tempo para salvar bens ou documentos, a fuga tornou-se a única opção.
“Quando a água começou a encher no rio, percebemos que não havia como ficar. Fugimos imediatamente e só levamos apenas os nossos filhos e sobrinhos. Saímos sem nada”, contou Felizarda.
Hoje encontra-se reassentada no Centro de Reassentamento da Escola Primária Completa 19 de Outubro, no bairro Filipe Samuel Magaia, onde vive com dois filhos, entre perto de 1.200 pessoas acolhidas no local. O centro atingiu o seu limite máximo e, segundo as autoridades locais, já não tem capacidade para receber mais vítimas.
As necessidades continuam a ser enormes. Alimentação, roupas, produtos descartáveis e artigos para crianças estão entre as prioridades mais urgentes.
“Precisamos de alimentos, coisas para crianças, roupas e descartáveis. Há crianças aqui que não têm absolutamente nada”, lamentou.
Apesar das dificuldades, Felizarda reconhece algumas melhorias desde que chegou ao centro.
“Aqui no centro as coisas melhoraram. Recebemos colchões e, no início, houve dias em que comíamos apenas uma vez. Agora, pelo menos, conseguimos comer todos os dias”, relatou.
Ainda assim, a realidade do reassentamento está longe de ser fácil.
“Viver aqui não é fácil, mas não temos outra alternativa”, afirmou.
O distrito de Boane foi um dos pontos severamente afectados pelas inundações na Província de Maputo, num contexto de cheias que atingem vastas regiões do país. De acordo com o Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres (INGD), até 19 de janeiro de 2026, cerca de 600 mil pessoas já foram afectadas em todo o país, número que continua a crescer à medida que as inundações persistem e as descargas controladas das barragens se mantêm. As projeções apontam para 1,1 milhão de pessoas afectadas.
Estima-se que 392 mil pessoas estejam deslocadas, muitas delas forçadas a abandonar as suas casas por estarem inundadas ou completamente destruídas. A vulnerabilidade é agravada pelo facto de cerca de 90% da população viver em casas altamente suscetíveis ao colapso após chuvas prolongadas.
Importa referir que, as cheias causaram ainda danos severos em infraestruturas essenciais, com quase 5.000 quilómetros de estradas danificadas em nove províncias, incluindo troços da principal estrada que liga Maputo ao resto do país. Mais de 34 mil cabeças de gado foram perdidas e cerca de 104.600 hectares de terras agrícolas ficaram destruídos, o que afectou directamente 47.300 agricultores.